Caros amigos, como prometido aqui está o meu novo artigo que está a passar hoje na Rádio Portalegre. Espero que o leiam e que o possam comentar. Um abraço a todos do vosso amigo Serrote. Espero que estejam todos bem.
Então aqui vai:
Um candidato apartidário!
Na passada quinta-feira António Aníbal Cavaco Silva apresentou-se como candidato à Presidência da República. Foi, até agora, a melhor apresentação a um cargo presidencial feita pelos candidatos existentes.
Um acto demonstrativo da vontade individual, independente dos partidos políticos. Cavaco (apesar de se assumir como social democrata), demonstrou que, nestas eleições, não são os partidos os protagonistas, mas sim os candidatos.
Apesar de 10 anos de algum silêncio (por vezes também é importante), Cavaco Silva nunca deixou de expressar a sua opinião nalguns artigos de jornais que tiveram sempre a maior cobertura mediática da maioria da comunicação social, bem como grande influência sobre a classe política, como são exemplos os seguintes artigos:
“O Monstro” em Fevereiro de 2000 no Diário de Notícias, em que alerta sobre a despesa pública do Estado;
“Missão Patriótica” em Maio do mesmo ano também no Diário de Notícias em que solicita aos jornalistas e aos empresários que se empenhem nessa missão e pressionem o Governo a governar;
Em Junho de 2001 escreve mais uma vez no Diário de Notícias o artigo intitulado “A Mentira”, desta vez para denunciar a má condução do Governo no que respeita à elaboração dos orçamentos e ao facto de dizerem que existe necessidade de um orçamento rectificativo devido ao abrandamento económico, em vez de assumir os «erros graves deliberadamente cometidos nos últimos anos».
Em Fevereiro de 2002, em pré-campanha para as legislativas antecipadas, na sequência da demissão de António Guterres, o Professor (como gosta de ser chamado) publica mais um artigo de opinião denominado “O Alerta”. Este alerta tinha como intenção avisar a população que era necessário mudar de rumo;
Mais recentemente e tendo em consideração o estado da situação política, Social e económica do nosso país, escreve em Novembro de 2004 o artigo “Os políticos e a lei de Gresham” sobre a degradação crescente da qualidade dos agentes políticos, numa alusão à necessidade da substituição dos maus pelos bons políticos;
Mas a apresentação de Cavaco Silva foi precisamente o oposto das candidaturas anteriores, em que a perspectiva partidário esteve sempre presente.
Ora vejamos:
Começando pela apresentação da candidatura de Mário Soares, que mesmo antes de se candidatar, necessitou do apoio prévio do Partido Socialista.
Nessa apresentação estavam presentes, para além de alguns amigos de longa data (excepto Manuel Alegrete…), o Exmo. Sr. Primeiro-ministro, bem como os altos responsáveis pelo PS.
Mário Soares, invocou nessa altura que era necessário evitar que a caminhada de Cavaco para Belém se transformasse num passeio triunfal.
Manuel Alegre, na sua apresentação como candidato presidencial, disse que queria evitar que Cavaco fosse eleito à primeira volta;
Ora, tanto Soares como Alegre se candidataram pela negativa, candidataram-se para impedir a vitória de Cavaco Silva.
Poderá parecer estranho que tanto Mário Soares como Manuel Alegre se tenham candidatado com este objectivo, mas a verdade é que ambos tiveram uma vida política muito mais marcante na oposição do que no poder.
Ambos estavam na oposição à ditadura antes do 25 de Abril.
Ambos lutaram contra o gonçalvismo depois do 25 de Abril.
Mesmo quando Mário Soares ocupava o lugar de Presidente da República, a sua principal preocupação (principalmente no 2º Mandato) era fazer oposição ao Governo liderado por Cavaco Silva, reclamando o «direito à indignação» e opondo-se à «ditadura da maioria» citando Mário Soares.
Neste contexto, não se estranha que Mário Soares e Manuel Alegre se tenham apresentado a combater algo ou alguém em vez de se apresentarem por algo ou pelos portugueses.
Mário Soares, depois de ter lutado durante 10 anos contra Cavaco Silva, não gostaria agora de o ver ocupar o lugar que já foi seu e acabar a carreira política com um currículo melhor que o seu.
Manuel Alegre é um caso especial. Como político, como poeta, como amigo, sempre foi igual a si próprio e não perdoa uma traição. Candidata-se evidentemente contra Cavaco mas principalmente contra Soares.
Jerónimo de Sousa e Francisco Louça apresentam-se como candidatos dos seus partidos, da esquerda e irão lutar um contra o outro para ver quem tem mais votos.
Neste cenário trágico para a esquerda portuguesa, Cavaco surge como o único candidato que não se apresenta contra ninguém. Apresenta-se por si, pela sua convicção de que pode contribuir para ultrapassar todos os problemas, nesta fase difícil em que o país está confrontado com a necessidade de uma mudança muito profunda para se adaptar a outros tempos, colaborando com o Governo, numa relação institucional com elevação, mas também com a obrigação de fazer o melhor por Portugal.
Tem também a vantagem de ser o candidato com melhor posição na sua área política, de não estar envolvido em polémicas e principalmente de não estar minimamente preocupado com os outros candidatos, mas sim com os problemas de Portugal.
Relativamente à sua primeira declaração, não existem mais dúvidas:
A questão do presidencialismo terminou. Cavaco, se for eleito presidente da república, irá respeitar os poderes constitucionais estabelecidos;
A coabitação com o PS não será uma ameaça, até porque tem uma experiência como Primeiro-ministro e sabe a importância da estabilidade política, da qual é um dos maiores defensores;
No que diz respeito ao refendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, Cavaco defende até que o Presidente da República deve dar sempre seguimento aos pedidos de referendo que vierem da Assembleia da República;
A dúvida que alguns têm sobre uma possível dissolução do parlamento está, neste momento, completamente fora de questão e só será referida por má fé;
Os seus adversários políticos têm desta forma, muito poucos argumentos para o criticar. As suas críticas começarão a incidir então sobre o seu percurso como Primeiro-ministro.
Ora, Numa época em que os governos não duram mais de 6 anos, o que se poderá invocar contra o Primeiro-ministro que mais estabilidade deu a Portugal desde o 25 de Abril?
Ao contrário do que possam pensar os seus adversários, todo o passado de Cavaco Silva como Primeiro-ministro não é uma desvantagem, mas sim um trunfo nestas eleições.
Artigo de Filipe Mouzinho Serrote lido na Rádio Portalegre e ouvido terça-feira dia 25 de Outubro de 2005